O universo de uma casca de noz que habitamos desde sua
origem nos divide e classifica; idade, nota, tamanho, sexo, beleza, caráter,
Q.I. e muitos outros atributos são dados àquele espermatozoide que conseguiu
fecundar um ovulo, ou será que essa classificação é dada muito antes?
Se pararmos para pensar, antes mesmo de existirmos já
estamos sendo classificados não só pela sociedade, mas também, pela natureza,
que com sua seleção natural descarta aquele que não teve capacidade o
suficiente para exercer a sua função. Quem sobrevive a essa natureza selvagem permanece
numa aflição que durará cerca de 9 meses e todas as expectativas do que este
ser vai ser é criada em uma atmosfera regida pelas regras de aceitação social.
"É menino ou menina?", "Será que vai ser parecido com a mãe ou o
pai?", essas perguntas e muitas outras que são ouvidas diariamente por
quem gera a vida.
Assim que se dá a luz a vida é jogada em um abismo sem volta
de escuridão, o futuro, incertezas e ânsia por aceitação social. Colocamos a
carinha para fora e a sociedade aparece como abutres a fim de julgar, mesmo sem
termos consciência de nossos atos até a maneira que choramos é julgada e na
cabeça de cada um nosso futuro é traçado ali, no primeiro choro, primeira
alimentação.... Primeiras vezes que deveriam ser experiências pessoais, mas que
seguindo a regra da sociedade define quem nós vamos ser.
Os anos passam e de repente primeiro dia de aula, bichos
criados em cativeiro jogados na selva sem proteção alguma. "Será ele um líder?",
"Será ele o inteligente?", "Será ele o popular?", como já
dizia Caetano, "Será, será, que será? Que será, que será?". E dessa
forma somos esculpidos como massa de modelar aos olhos da sociedade.
Na adolescência os hormônios afloram e o inferno vem junto
com eles, como se já não bastasse termos que provar para a sociedade tudo o que
nós somos e o que podemos ser, ainda temos que provar para o outro, por
instinto selvagem, e pra na vida adulta repetirmos por gerações esse ciclo que
passa despercebido pelos olhares perdidos na tirania social.
Formamos, casamos, temos filhos, nos aposentamos, gastamos
dinheiro comendo, gastamos dinheiro emagrecendo, gastamos dinheiro nos maquiando,
gastamos tempo ganhando dinheiro para gastarmos depois. E nesse texto,
gastaram-se linhas, palavras e o tempo do leitor, falou-se, gastou-se e nada
foi dito? Talvez.
Será que esquecemos a história do Quasimodo nesse tempo
todo? Tirado pelos pais pela tirania trancafiado a vida toda em uma torre por
não ter os padrões de beleza ditados pela sociedade, mas mesmo assim um indivíduo,
que na minha humilde opinião, um indivíduo muito belo. Seria essa mais uma
divisão? Um indivíduo belo e um belo indivíduo? Estaria eu brincando com a
ordem das as palavras ou alterando o sentido da coisa?
A sociedade esqueceu do indivíduo por si só, as caras
cobertas de maquiagem e os corpos cheios de anabolizantes e cirurgias são o que
importam, são o que o mundo mostra, é o que mostramos pro mundo. Contudo, em
todo esse caminho percorrido, há quem tenha coragem de ser Quasimodo, há quem
tenha coragem de ser Esmeralda, mas tem há quem não tenha coragem nenhuma, e
siga a risca o ciclo vicioso, um ciclo que nunca vai ser quebrado, mas vai ter
sempre que alguém que vá de contramão a ele.
E no meio de tanta beleza estereotipada eu prefiro ser um
Quasimodo, e você?
Comentários
Postar um comentário