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O branco


E do nada a tela branca e vazia foi sendo pintada a sua maneira. A menina pequena que mal falava bordava a tela com seus mais diversos movimentos e a tinta que escorria por seus dedos, braços e a esta hora até as pernas. À medida que seus movimentos uniformes e repentinos se faziam a pintura que uma fora disforme ia ganhando vida, vida como a vida, inconstante, com seus relevos, picos e abismos, e ela se jogava nessa pintura e dançava como fazia com a vida, dançava para lá e para cá flutuando sobre tudo, sobre águas e céu, sobre risos e lágrimas. E a tinta ia escorrendo por quase toda a tela, sem início ou fim, até que ela se deparou com o branco. O branco era novo, era diferente, era cor e não era cor, era tudo e não era nada. O branco era ela, e não era. E pela primeira vez a menina parou de dançar, parou de flutuar e entrou em estado de graça, graça e veneração pelo branco, pelo desconhecido, a menina começou a virar gente e caminhar pelo branco, o branco esteira o futuro, o passado ou o presente ela se perguntava? Pelo branco sussurros de poesias voavam, anjos cantavam, o branco era tão lindo, mas era branco, e a menina sentia falta das cores turbulentas, cheias de sentimento, raiva, paixão, alegria e tudo que elas a faziam sentir, mas não queria ficar sem o branco, e então a pequena menina percebeu que nem tudo na vida tem que ser preenchido, tudo pode ser nada e nada pode ser tudo, que espaços em branco são precisos e que ela agora aceitava o branco. E naquele cantinho, no meio de todo borrão da tela ela, estava o branco, e se alguém um dia qualquer a perguntasse porque faltará aquela parte, ela responderia com um simples sorriso branco, que não faltara nada

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